Ainda na onda dos contos sobre sorvete, minha amiga Larissa pediu para que eu publicasse o conto dela por aqui também. Espero que gostem, eu amei! :)
Passas ao Rum
“Aninha, eu e o Carlinhos
vamos a Búzios hoje, quer vir também?” Natália perguntou para Ana Alice, sua
irmã.
“Não sei...” Ana Alice falou, indecisa.
“O Lúcio vai também, tá?” Natália comentou, com um tom
deliberadamente casual que não convencia nadinha.
Natália nunca fez segredo que detestava Ferdinand, o ex
marido da Ana Alice. Ele, por sua vez, também não suportava a cunhada. Para
Ferdinand, a sua família se resumia a Ana Alice e a Gabriela, sua única filha.
Se pudesse, moraria com elas em uma ilha cercada de tubarões onde cultivariam
sua própria horta de subsistência, bem longe da civilização. Aquela era a sua idéia de paraíso. Sem carne
vermelha, sem agrotóxicos, sem sal, sem açúcar, sem tempero. Sem endorfina. Sem
prazeres.
E no início, foi exatamente isso que encantou Ana Alice. Ele
era diferente. Ele era estrangeiro. Falava sobre coisas de astral, de
espiritualidade. Curtia coisas naturais. E era realmente louco por ela, isso
dava pra ver. Com o tempo, viu que era mesmo louco. De pedra. Os tubarões
deveriam ter sido a dica.
E agora esse homem, sócio do marido da Natália, corria atrás
dela incessantemente.
Quando os dois se conheceram, em uma festa na casa da
Natália, ele segurou a sua mão.
“Quer fazer o favor de largar?” Ela disse, puxando o braço.
Desde então, tomou antipatia dele. E ele começou a correr
atrás dela.
Se Ana Alice ia a um restaurante com a irmã e o cunhado, o
Lúcio aparecia por acaso. Quando Ana Alice visitava a irmã, o Lúcio surgia. Que
insistente! E dizia para a dona Carminha, mãe da Alice e da Natália, que ainda
ia ser seu genro.
Ana Alice desconfiava que a irmã estava fazendo mais do que
campanha para os dois ficarem juntos. Tinha uma leve suspeita de que ela andava
inclusive ligando pra ele, avisando onde estavam. Então afastava essa idéia.
Depois de tanto tempo casada com um maluco, devia estar ficando maluca também.
E paranóica.
“Tudo bem, eu vou.” Ana Alice disse, meio a contragosto. “Mas
se aquele chato vier de gracinha pra cima de mim, eu dou um empurrão nele”.
E assim, Ana Alice foi para Búzios com a irmã, o cunhado e o
Lúcio.
“Querem tomar um sorvete?” foi o “chato” que fez a proposta.
“Sorvete? Nossa, faz 6 anos que eu não tomo sorvete.” Ela pensou.
Lembrou-se dos anos com o
marido. Do bife de glúten. Do arroz integral. Do pão feito em casa. Do açúcar
mascavo.
“Experimenta esse aqui” falou Lúcio, colocando um potinho de
sorvete amarelo com bolinhas pretas na sua frente. “’É de passas ao rum.”
Ana Alice fez o que ele sugeriu. Quando levou a pazinha de
sorvete à boca, foi invadida por uma enxurrada de sensações que estavam
adormecidas havia 6 anos, enterrados sob o trigo integral. Os seus neurotransmissores lhe enviaram a
mensagem: “Isso é bom! Por que eu não tomo sorvete há tanto tempo?”
De repente, as coisas voltaram a ter graça. A ter açúcar,
sal, edulcorantes artificiais e gordura trans. E rum. Quem disse que não havia
felicidade em um pote de sorvete?
Ana Alice olhou para o cara na sua frente, e ele não parecia
mais tão mau assim.