Sábado, Maio 26, 2012

Capítulo 145

Visitar a casa dos pais é sempre um momento único e uma aventura inesquecível. Ainda mais quando você  não consegue uma passagem de avião compatível com o bolso e tem que passar 7 horas num ônibus, das 23h00 às 6h00. Mas dessa vez eu particularmente me senti dormindo na minha cama, que exatamente dois meses depois de adquirida começou a se deformar como uma gelatina fora da geladeira e me proporcionar dores nas costas e noites mal dormidas que nem o vizinho da furadeira era capaz.

Mas tudo isso compensa quando você chega em casa, abre o congelador e tem um pote de Häagen-Dazs Macadamia Nut Brittle.

Aaaah, o poder do sorvete!

Domingo, Abril 22, 2012

Capítulo 144


Sexta-feira, Murphy deliberadamente resolveu me punir por postar contos fofinhos no meu blog. Só pode ter sido essa a razão pra tamanha onda de azar a qual fui acometida. Ou foi isso ou foi o atípico despertar cedo de bom humor. Aaaah, não acreditam? Aaaaah, vocês acham que eu estou exagerando, né? Pois bem, eu conto pra vocês.

Chego na faculdade logo cedo para executar meu ensaio. Após a colocação de todos os aparelhos, fui ligar meu laptop, já que a aquisição dos dados é digital, e descubro que a bateria está baixa. Resolvo pegar a extensão para ligar o carregador e o carregador resolve não ligar. Dou uma viradinha no fio pra lá e pra cá pra ver se era problema de mau contato. Não era. Testo em outras tomadas. Nada.

Ok, vamos apelar.

Fui falar com meu orientador, que entende de eletrônicos e afins. Ele abriu o carregador e chegou ao mui otimista diagnóstico: "Xiiii, melhor comprar outro." e me emprestou o laptop dele para fazer o ensaio. Liguei o laptop, instalei o programa de aquisição de dados, conectei o aparelho de aquisição de dados, liguei-o na tomada de 220V e queimei o aparelho.

Aí você me diz que essa não foi azar, foi burrice, mas em minha defesa eu sempre uso AQUELA extensão pra ligar AQUELE aparelho e ela sempre está ligada na tomada 110V. Acontece que alguém resolveu usar a extensão para ligar uma aparelho 220V e deixou lá. Show!

Isso não foi um problema muito grande pro ensaio pois ainda poderia fazer a aquisição de dados manual. Não que seja divertido fazer leituras de 5 em 5 minutos por 3 horas e meia, com o horário do almoço no meio, mas a man gotta do what a man gotta do. 

A parte disso, eu ainda tinha outro problema a resolver: eu não tinha terminado de preparar a aula de inglês para aquela tarde, e o que eu tinha estava no meu computador sem bateria. Dei uma ligada de emergência pro cunhado que tem o carregador compatível com o meu e fui pegá-lo emprestado na casa dele.

Já no seu prédio, subindo até o sétimo andar, o elevador parou entre dois andares. Rapidamente ele voltou a funcionar e parou onde deveria, mas todo mundo sabe que mau funcionamento de elevador é um atestado quase escrito de bad vibes.

Peguei o carregador e fui correndo pra casa. A essa altura do campeonato, meu cronograma já estava tremendamente atrasado e tinham me sobrado imensos 25 minutos pra terminar a aula, imprimir tudo, xerocar e sair correndo de novo para o ponto de ônibus. Ligo o carregador na tomada e no computador, aperto o botãozinho mágico do Power e o lindo do Windows resolve fazer uma reparação de emergência que tomou 10 dos meus preciosos 25 minutos pra fazer a aula.

Depois de toda essa novela, fui buscar uma figura que precisava pra exemplificar a matéria e a internet resolveu brincar de pique-tartaruga, demorando uns 5 minutos pra abrir a página dos resultados da busca do Google. Enquanto minha querida amiga não se decidia se queria ou não trabalhar, eu resolvo adiantar meu lado e imprimir e xerocar o que já estava pronto.

Agora, se fosse um episódio de Seinfeld e eu fosse o George Constanza, as coisas não poderiam dar mais errado do que deram porque, pra premiar o dia a minha impressora resolveu fazer A LOUCA. Pirou, começou a pegar e cuspir folha em branco, imprimir uns símbolos muito loucos em algumas. Deu piti!

Respirei fundo. Desliguei a impressora. Reiniciei o computador. Achei a figura. Imprimi tudo. Sai correndo pro ponto de ônibus. Cheguei atrasada na aula.

Sexta-feira, Abril 13, 2012

Capítulo 143

Domingo, ao voltar do almoço de Páscoa na casa da vó do fenômeno de ônibus, o motorista conseguiu realizar a façanha de passar do lado da rodoviária e fazer um retorno em Boa Vista pra entrar na dita cuja, tendo que pegar duas rodovias pra voltar e adicionando mais de 40 minutos ao tempo total de viagem.

Após muito pensar, cheguei a 3 possíveis causas para tal acontecimento:

a) O caminho da rodoviária é realmente confuso, e qualquer pessoa sem um senso de direção muito aguçado poderia se perder;
b)  Por motivos de feriado, a Viação Cristália escalou até os faxineiros para dirigirem os ônibus extras que foram colocados na rota,
c) A Raquel estava no ônibus.

Sábado, Abril 07, 2012

Passas ao Rum - Larissa Rumiantzeff

Ainda na onda dos contos sobre sorvete, minha amiga Larissa pediu para que eu publicasse o conto dela por aqui também. Espero que gostem, eu amei! :)


Passas ao Rum

“Aninha,  eu e o Carlinhos vamos a Búzios hoje, quer vir também?” Natália perguntou para Ana Alice, sua irmã.
“Não sei...” Ana Alice falou, indecisa.
“O Lúcio vai também, tá?” Natália comentou, com um tom deliberadamente casual que não convencia nadinha.

Natália nunca fez segredo que detestava Ferdinand, o ex marido da Ana Alice. Ele, por sua vez, também não suportava a cunhada. Para Ferdinand, a sua família se resumia a Ana Alice e a Gabriela, sua única filha. Se pudesse, moraria com elas em uma ilha cercada de tubarões onde cultivariam sua própria horta de subsistência, bem longe da civilização.  Aquela era a sua idéia de paraíso. Sem carne vermelha, sem agrotóxicos, sem sal, sem açúcar, sem tempero. Sem endorfina. Sem prazeres.

E no início, foi exatamente isso que encantou Ana Alice. Ele era diferente. Ele era estrangeiro.  Falava sobre coisas de astral, de espiritualidade. Curtia coisas naturais. E era realmente louco por ela, isso dava pra ver. Com o tempo, viu que era mesmo louco. De pedra. Os tubarões deveriam ter sido a dica.

E agora esse homem, sócio do marido da Natália, corria atrás dela incessantemente.

Quando os dois se conheceram, em uma festa na casa da Natália, ele segurou a sua mão.

“Quer fazer o favor de largar?” Ela disse, puxando o braço.

Desde então, tomou antipatia dele. E ele começou a correr atrás dela.

Se Ana Alice ia a um restaurante com a irmã e o cunhado, o Lúcio aparecia por acaso. Quando Ana Alice visitava a irmã, o Lúcio surgia. Que insistente! E dizia para a dona Carminha, mãe da Alice e da Natália, que ainda ia ser seu genro.

Ana Alice desconfiava que a irmã estava fazendo mais do que campanha para os dois ficarem juntos.  Tinha uma leve suspeita de que ela andava inclusive ligando pra ele, avisando onde estavam. Então afastava essa idéia. Depois de tanto tempo casada com um maluco, devia estar ficando maluca também. E paranóica.

“Tudo bem, eu vou.” Ana Alice disse, meio a contragosto. “Mas se aquele chato vier de gracinha pra cima de mim, eu dou um empurrão nele”.

E assim, Ana Alice foi para Búzios com a irmã, o cunhado e o Lúcio.

“Querem tomar um sorvete?” foi o “chato” que fez a proposta.
“Sorvete? Nossa, faz 6 anos que eu não tomo sorvete.”   Ela pensou.

Lembrou-se dos anos com o marido. Do bife de glúten. Do arroz integral. Do pão feito em casa. Do açúcar mascavo.

“Experimenta esse aqui” falou Lúcio, colocando um potinho de sorvete amarelo com bolinhas pretas na sua frente. “’É de passas ao rum.”

Ana Alice fez o que ele sugeriu. Quando levou a pazinha de sorvete à boca, foi invadida por uma enxurrada de sensações que estavam adormecidas havia 6 anos, enterrados sob o trigo integral.  Os seus neurotransmissores lhe enviaram a mensagem: “Isso é bom! Por que eu não tomo sorvete há tanto tempo?”

De repente, as coisas voltaram a ter graça. A ter açúcar, sal, edulcorantes artificiais e gordura trans. E rum. Quem disse que não havia felicidade em um pote de sorvete?

Ana Alice olhou para o cara na sua frente, e ele não parecia mais tão mau assim.